Sobre o Autor

Gosto de me comunicar, expressar opiniões e mensagens inspiradoras de elevação espiritual. Sou uma pessoa de firmeza e tenho autoconfiança. Respeito e acolho a opinião dos outros, construir relações honestas e produtivas. Sou detalhista, tenho pré-disposição para ser criativo, respeito e admiração pelos animais e praticar o bem.

 

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  • José Luiz Sardá

COLÔNIA PENAL AGRÍCOLA URBANO SALLES -CANASVIEIRAS


Em 1959 antes do golpe militar a Colônia Penal Agrícola Urbano Salles já havia introduzido o método revolucionário para ressocialização de presos. De acordo com a lei 4.378, assinada em 11 de outubro pelo então governador Ivo Silveira, “a colônia destinava-se a sentenciados com, no mínimo, um terço da pena cumprido com bom comportamento carcerário, para execução de medidas de segurança detentivas”. O objetivo da adoção de “regime adequado” era a recuperação do condenado e prepará-lo para o último estágio da pena, a liberdade condicional, antes da ressocialização. Meu tio José Vitor de Amorim, por vinte anos foi diretor e o responsável pela administração desta colônia e meu falecido pai Adélcio José Sardá agente prisional. O método aplicado aos detentos consistia na autossuficiência econômica com trabalho, família e responsabilidade para a produção alimentar.


Construída em terras da antiga Fazenda Moura, localizada as margens do Rio Papaquara e Rio do Brás, foi comprada em 1950 pelo governo do estado para se transformar na Colônia Penal Agrícola Urbano Salles. Foi desativada entre 1979 e 1980, hoje abriga a sede do complexo tecnológico Sapiens Parque. 


O prédio tinha dois pavimentos. No térreo funcionava a administração, sala, alojamento da guarda e auditório. Em cima, o alojamento coletivo dos presos solteiros e um pequeno cárcere, conhecido por “quarto escuro”, que servia aos presos que infringisse as regras penais, que eram recolhidos por alguns dias. A capela em devoção a Nossa Senhora Aparecida foi construída em 1968. Teve a primeira missa celebrada pelo então arcebispo metropolitano Dom Afonso Nihues.


Nesta época as comunidades de Canasvieiras e circunvizinhas eram pacatas e levavam uma vida bucólica. O turismo estava começando a surgir, os nativos pouco entendiam os subterrâneos da política da época. A maioria dos que trabalhavam na Colônia Penal eram moradores da região Norte da Ilha, entre eles: o cozinheiro Hamilton Vieira e o secretário Jair Andrade. Recordo quando meu saudoso pai costumava me levar para jogar bola com as outras crianças e andar no jeep com ele pelos campos da colônia. Além de meu pai, guardo lembranças memoráveis de outros guardas já falecidos e alguns ainda vivos: Euclides Monteiro e Wilson da Costa (Canasvieiras); Francisco Magalhães, Genésio Magalhães, Lourenço Forte e Bento (Jurerê); Heitor e Saul Andrade (Cachoeira do Bom Jesus); Djalma (Vargem Grande); José Roque (Ratones); Erasmo (Ingleses); José Fidelis (Rio Vermelho); José Heitor (Sambaqui); Pipó (Saco Grande) e Betinho (Estreito), entre outros nativos e conhecidos da região, todos de famílias tradicionais de Canasvieiras, Jurerê, Cachoeira do Bom Jesus e região.


Os guardas dividiam com os presos o mesmo refeitório e a relação de convivência entre eles, presos e seus familiares era pacífica, de respeito e confiança, até depois da chegada dos "presos subversivos". Entre 1975 e 1977 está colônia serviu a Operação Barriga Verde numa prisão sem muros. Esta operação prendeu quarenta e duas pessoas, entre eles profissionais liberais, advogados, operários, professores e estudantes, incluindo homens e duas mulheres, a maioria integrante do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Depois de interrogados, e torturados em dependências do Exército, da Polícia Federal e das polícias Civil e Militar, em Florianópolis e Curitiba, parte deles foram transferidos para lá. Com a transferência deles, a segurança da colônia foi reforçada pela guarnição especial da Polícia Militar do Estado. Assim, sentenciados, funcionários e presos políticos passaram a conviver no mesmo ambiente.


Depois de sofrerem maus tratos e serem torturados física e psicologicamente pela ditadura militar encontraram um ambiente de “paz”. A presença deles e de presos comuns na colônia penal passou a interferir no cotidiano dos funcionários e da comunidade de Canasvieiras, principalmente com a movimentação de militares da guarnição especial da PM, comandada pelo capitão Nelson Coelho, responsável pela guarda dos presos políticos.

Havia um conselho formado pelos presos Jorge Feliciano, Marcos Cardoso e Ury Coutinho de Azevedo encarregados das negociações com as autoridades, que organizava o cumprimento do regimento interno feito por eles. Melhoraram as condições sanitárias de saúde da população carcerária. Sob a orientação do médico Augusto de Melo Saraiva, foi organizado o dormitório e a enfermaria e uma escala para limpeza dos banheiros.


A energia elétrica era fornecida por gerador próprio e a água retirada de poços artesianos. Tinha padaria industrial, cozinha, refeitório coletivo com cardápio diário, onde presos e seguranças eram servidos simultaneamente. Na horta coletiva produziam cebola, arroz, feijão, milho, hortaliças e melancia. Tinha criação de galinhas e porcos, que garantia a alimentação da colônia. O excedente era vendido para pagamento dos funcionários e levado à Penitenciária Estadual na Trindade.


Os presos jogavam baralho, conversavam e tinham acesso a todo tipo de leitura. Os casados em final de pena conviviam ao lado da família em pequenas casas de alvenaria e de madeira, construídas ao longo de três ruas estreitas de chão batido, sem cercas e separadas por pequenas hortas individuais. As famílias eram reabastecidas mensalmente com cesta básica. Desarmados, os guardas de plantão circundavam o quarteirão e faziam rondas noturnas, batiam três vezes e chamavam pelo nome do sentenciado, que respondia sem precisar abrir a janela.


'O texto acima é de uma entrevista, onde eu José Luiz Sardá fui um dos entrevistados pelo amigo de infância, jornalista e repórter do Jornal Notícias do Dia - Florianópolis Edson Rosa, sobre uma matéria especial intitulada: "50 anos do golpe" publicada em 5 de abril de 2014.' Segue link: https://ndmais.com.br/noticias/presos-politicos-da-ditadura-ficaram-em-antiga-colonia-penal-no-norte-da-ilha/

Fotografia: Acervo pessoal ND 

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