• José Luiz Sardá

IGREJA SÃO FRANCISCO DE PAULA

Crédito: Ipuf/Prefeitura




Minha falecida avó Teonília Flora Siqueira Sardá nascida em 1903, contava que meu bisavô Manoel Rafael Sardá falava que os imigrantes açorianos vindos do arquipélago dos Açores foram os responsáveis pela construção da igreja de São Francisco de Paula.


Muita gente do lugar ajudou a carregar pedras para o terreno onde havia uma capelinha atrás onde hoje é o altar principal e nos fundos o antigo cemitério, para ajudar na construção da igreja. Toda mão de obra foi de escravos, mas teve ajuda de muitos nativos. Dizia que aos domingos frequentava as missas, além dos batizados, casamentos, enterros, festas religiosas do padroeiro, de São João e São Pedro e gostava do Terno de Reis. Muitos bailes foram realizados no antigo casarão de pedra em estilo colonial chamado de teatro que ficava em frente ao átrio da igreja.


Nos dias de finados vinha gente de todas as freguesias e arraiais, muitos pernoitavam nas casas de parentes. Neste dia o lugarejo se transforma em festa, com comércio de velas, flores, comidas e bebidas. Também existiu a Casa do Império que era destinada aos aposentos dos padres, autoridades da igreja e pessoas que ajudavam nas atividades da paróquia. Durante a festa do Divino Espírito Santo era utilizada como casa de apoio aos festejos e ao cortejo imperial”.


Antes mesmo de Canasvieiras tornar-se freguesia, gerou-se a necessidade da construção de uma igrejinha, para atender aos habitantes da localidade, iniciada então, em 1830, pelo navegante Eduardo Moreira, sob devoção de São Francisco de Paula. Ergueu-se a capelinha em lugar encantador, na sede da futura freguesia, a uma altura de cem metros da praia, diante de uma praça de forma retangular, de onde se vislumbra o maravilhoso panorama marinho da entrada do Norte, povoado de ilhas. Pouco registro existe com relação à Igreja, não muito além da data de início da construção.


Enfim, com poucos recursos houve dificuldades em manter-se o templo que, ao longo de todos esses anos, desde 1830, conseguiu pequenas melhorias. A manutenção da Igreja é realizada pela comunidade, que possui papel ativo e de destaque, participando das missas e a prestigiando mais a cada dia. O cemitério original ainda existe e está localizado nos fundos da Igreja. Não há quem faça o percurso entre as praias de Canasvieiras e Jurerê que não fiquem emocionado quando se vê diante desta igrejinha, tão simples e singela, porém ao mesmo tempo incrivelmente marcante.


O destino quase que absoluto dos turistas que se encaminham para o Norte da ilha de Santa Catarina é a praia de Canasvieiras, reduto que a cerca de dois séculos foi fundado por descendentes de Francisco Dias Velho. A pequena praia de Canasvieiras, até então calma e pouco habitada, foi escolhida como local de desembarque de vários navios estrangeiros que chegava a ilha, inclusive a esquadra espanhola de dez mil homens que nos rendeu em 23 de fevereiro de 1777, e que por um curto período de menos de um ano colocou a ilha catarinense sob a bandeira da Coroa Hispânica. Por seu fundo e magnífico ancoradouro tocaram todos ou quase todos os navegantes que iam para o Prata e Mar do Sul, na época das famosas descobertas marítimas.


Dizem que com a campanha de povoamento da Ilha de Santa Catarina, promovida entre 1748 e 1756 muitos imigrantes açorianos alojaram-se na região, fato igualmente repetido nas freguesias próximas. O lugar foi grande produtor de cana-de-açúcar, e é deste fato que muitos tiram o nome da localidade, que viria do canavieiro plantador. Outros sustentam que das extensas plantações de um certo senhor Vieira, originou-se o nome Canasvieiras. Atualmente ainda existem muitos nativos que carregam este sobrenome. Produzia-se também mandioca, feijão, milho, algodão e café e a partir de 1780, foi o primeiro núcleo de cultivo do linho cânhamo em toda a Ilha. Somente em 1835, Canasvieiras elevou-se a condição de Distrito, sob a invocação de São Francisco de Paula, desmembrando-se da freguesia de Nossa Senhora das Necessidades de Santo Antônio de Lisboa. Ao longo dos séculos XVIII e XIX Canasvieiras teve seu desenvolvimento favorecido pelo fato de ser caminho obrigatório para o Forte de São José da Ponta Grossa (construído em 1740 porJosé da Silva Paes) e para os Ingleses do Rio Vermelho. A partir da pesca artesanal que se realizava na praia desenvolveram-se os núcleos ao seu redor.


Aspectos Arquitetônicos – Estado de Conservação

Podemos fazer uma descrição rápida da Igreja de São Francisco de Paula por ser ela bastante simples e singela; com telhado em duas águas encobrindo a nave (retangular em planta), completada pela capela-mor e sacristia (juntas também formando um corpo retangular, anexo aos fundos da nave). A fachada é composta por uma alta porta de madeira e duas janelas superiores, todas com verga em arco abatido. No alto destaca-se o olho-de-boi. Possuem pequenas volutas, levemente rampantes, na parte superior do frontão (em cujo vértice tem uma cruz), cercadas por duas grimpas. Nas Cimalhas laterais notamos a beira-seveira.

Dois contrafortes sustentam a parte esquerda do templo, representando um elemento novo não visto atualmente em nenhuma outra Igreja antiga da ilha. Deste mesmo lado está o campanário, localizado fora do corpo da Igreja. Ambas as laterais possuem duas janelas e uma porta. Junto a sua lateral direita foi construído atualmente um salão paroquial que está em total desarmonia com a edificação.


A Igreja de São Francisco de Paula possui três altares, um da capela-mor e dois de cruzeiro, sendo todos em linhas clássicas, tipo tabernáculo, com colunas lisas e sem decoração. Acredita-se que não possuam mais de cem anos. Estão pintados nas cores amarelos e dourado. Há ainda na Igreja uma pintura singela, assinada por Francisco Dias, feita diretamente no forro da Igreja, na nave, a óleo, representando o Cristo Crucificado, nas cores marrom escuro, creme, branco e amarelo e azul claros. Esta pintura foi deslocada do forro da nave para a parede lateral direita da capela-mor, pela equipe de restauro em 1985.


A Igreja possui também um pequeno quadro do mesmo Francisco Dias, de 1940, representando “Jesus sobre as Águas”, que este pintou em homenagem ao irmão e que fica exposto logo na entrada da nave. O coro é bastante simples, sem muitos chamativos. Hoje, após um apurado tratamento de restauro, a Igreja de São Francisco de Paula, encontra-se em ótimo estado de conservação e merece ser visitada por representar com rara beleza a arquitetura colonial religiosa na ilha catarinense.


Reformas

Sabe-se que a Igreja de São Francisco de Paula, em 1838, ainda não estava concluída, mas já necessitava de reparos, estando em péssimo estado de conservação, tanto que uma forte tempestade, neste mesmo ano, deixou a Igreja praticamente em ruínas. A Igreja ainda não possuía altares, e seu assoalho aos poucos se deteriorava, sendo que é também desta data pedido de um trono para as Imagens e altar para celebrar missa, demonstrações de sua precariedade. Foi construída em pedra, tijolo e estuque e suas paredes ainda não apresentavam reboco, externa e internamente. Com a tempestade a parte sudoeste da Igreja chegou a cair, deixando as paredes inclinadas, com a série ameaça de cair o resto.

Sara Regina de Souza em seu livro “A presença portuguesa na arquitetura da ilha de Santa Catarina - séculos XVII e XIX” nos lembram o estado em que se achava a pequena capela: “As telhas foram tiradas para evitar que caísse o teto”. O madeiramento em contato direto com as intempéries, foi apodrecendo. Devido a todos esses problemas, o Vigário Pulcheria, a 9 de janeiro de 1839, solicita providências ao presidente da província. A 2 de novembro de 1840 o mesmo Vigário pede reparos na Igreja, tais como, substituição do madeiramento do telhado e telhas de boa qualidade, mais precisamente quatro mil delas, que seriam trazidas da Armação da Piedade. Um ano após, em novembro de 1851, o Vigário torna a pedir reparos na Igreja, que se achava, segundo ele, em deplorável estado, por se encontrar doze anos sem telhado. As paredes estavam ruindo e a capela-mor não estava, ainda, terminada e nem forrada. Quanto aos paramentos, praticamente inexistiam. Os únicos que a Igreja possuía, haviam sido das antigas fortalezas e estavam, logicamente, em péssimas condições.

Em nota de fevereiro de 1860, vamos verificar que a Igreja de São Francisco de Paula ainda não possuía torre, sendo que os sinos se achavam pendurados em dois pedaços de madeira. Esta situação continuou ainda por muito tempo e a Igreja foi sendo construída aos poucos, levando praticamente cem anos para ser terminada.

Decerto este pode ter sido um dos motivos para a Igreja ter seu aspecto externo ainda em estilo notadamente colonial, sem ter sofrido várias transformações. Afinal, como se poderia “encaixar, aumentar” elementos arquitetônicos na Igreja sendo que nem pronta ela estava. Este fato ocorreu praticamente com toas as Igrejas da ilha, principalmente aquelas do centro da cidade, que com o passar dos anos mudaram muito. Analisando-se esta demora na construção, acreditamos ter sido este um ponto até positivo. Infelizmente, isto não ocorreu também em seu interior, que foi prejudicado pela demora, sendo que os altares e retábulos destoam em relação à arquitetura do templo, não tendo nenhuma relação com seu estilo. Em data de 24 de agosto de 1984 o IPUF redigiu um documento intitulado “Considerações gerais para recuperação da Igreja de São Francisco de Paula no Distrito de Canasvieiras”, no qual fazia uma descrição minuciosa de tudo aquilo que deveria ser recuperado e restaurado na Igreja, o que realmente efetivou-se no ano seguinte. Para a realização desta reforma foi feita uma análise total da Igreja se tirou algumas conclusões sobre elementos existentes na sua composição. Da mesma forma com que foram descritos os procedimentos adequados antes da restauração, quando esta já estava concluída novamente descriminou-se tudo o que havia sido feito, com as modificações que acarretam o trabalho prático. Este documento foi de setembro de 1985, portanto um ano após o anterior: “A Igreja encontrava-se com sérios problemas estruturais que poderiam vir a culminar no desabamento”. As paredes laterais vinham sofrendo um processo progressivo de deslocamento e curvatura, em decorrência do peso excessivo do telhado sobre estas. Outro agravante era as péssimas condições em que se encontravam a cobertura, com o madeiramento totalmente comprometido pela infiltração de cupins.


“ Frente à reduzida disponibilidade de recursos, optou-se primeiramente pela recuperação total da nave, que necessitava de reparos imediatos...” Com base em estudos e prospecções no próprio local e na coleta de referenciais de igrejas contemporâneas à de São Francisco de Paula foram feitas às devidas reformas, como por exemplo: o espaço abaixo da escada que leva ao coro foi liberado, retirando-se o fechamento em madeira que escondia atrás de si o antigo batistério; os altares cruzeiros foram despojados dos acréscimos que alteravam suas formas primitivas. Com o fechamento desta etapa e a viabilização de recursos complementares decidiu-se levar os trabalhos para a capela-mor. Hoje a Igreja encontra-se perfeitamente restaurada. A Igreja de São Francisco de Paula é tombada a nível municipal pelo decreto no. 1341 de 17 de dezembro de 1975.




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Sobre o Autor

Gosto de me comunicar, expressar opiniões e mensagens inspiradoras de elevação espiritual. Sou uma pessoa de firmeza e tenho autoconfiança. Respeito e acolho a opinião dos outros, construir relações honestas e produtivas. Sou detalhista, tenho pré-disposição para ser criativo, respeito e admiração pelos animais e praticar o bem.

 

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