Sobre o Autor

Gosto de me comunicar, expressar opiniões e mensagens inspiradoras de elevação espiritual. Sou uma pessoa de firmeza e tenho autoconfiança. Respeito e acolho a opinião dos outros, construir relações honestas e produtivas. Sou detalhista, tenho pré-disposição para ser criativo, respeito e admiração pelos animais e praticar o bem.

 

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  • José Luiz Sardá

ILHA DO FRANCÊS - A PÉROLA VERDE DO ATLÂNTICO SUL



Localizada na Baía de Canasvieiras, Norte da Ilha de Santa Catarina, a Ilha do Francês, Ilha do Argentino, ou Ilhota como é popularmente conhecida pelos pescadores e nativos da região, nossa pérola verde e paradisíaca ilha do Atlântico Sul é nosso ícone e referência para quem aporta e visita a Ilha de Santa Catarina. Sua vegetação é formada principalmente pela mata atlântica, costões, de difícil acesso e exuberante flora e fauna e duas pequenas praias. Lembrando um pouco de sua história, uma nota publicada em revista local de 1949, pelo jornalista da época Celso Perrone cita: “dizem que seu nome, como é fácil de deduzir, proveio do fato de ter sido habitada há cerca de um século por um veterano da Grand Armée de Napoleão Bonaparte e que emigrara após a derrota de Waterloo”. Mas, segundo pescadores mais antigos e meu saudoso bisavô "Joaquim da Ilhota", contavam que naquela época tripulantes de uma nau francesa morreram a bordo em decorrência de uma epidemia e que os corpos foram sepultados na Ilhota, dando assim a denominação Ilha do Francês.


Ao longo dos anos foi ocupada com sucessivas trocas de proprietários. Existem registros de que este lindo pedaço de terra no mar foi adquirido em 1824 por Manoel Vieira, através de escritura de compra e venda e sua efetiva ocupação deu-se no ano 1884, em 1894 metade da Ilha com uma casa e muitas árvores frutíferas, segundo consta em escritura de venda arquivada no Patrimônio da União,tornou-se propriedade de João José Monteiro e José Frederico Kreff.


No Conto “Na Ilhota” de Virgílio Várzea – 1891, há uma linda descrição extraída do livro Mares e Campos - onde aparece o nome do antigo proprietário João José Monteiro: [Nessa Noite de S. João, em Canasvieiras, tudo gelava. Mas, desde o escurecer que o estreito e arenoso caminho da praia, nos outros dias, silencioso e deserto, cobrira-se de gente, enchera-se de animação e ruído. Eram famílias da freguesia e circunvizinhanças que se encaminhavam para o mar, até à Ilhota, onde havia os festejos de todos os anos, em casa de João Monteiro. A festa lá,  nessa noite, ia ser boa, porque coincidia com as festas da chegada do Manuel Lemos, o capitão do Estrela, o noivo da Mariazinha, que vinha da costa da África, por onde errara longos meses, sem se saber dele, na última viagem: e a sua volta, depois de tanto tempo, derramava uma grande alegria no seio da boa gente do Monteiro e por todo o sítio, onde era muito estimado].


Em 1893 a Ilhota foi adquirida por seis contos de réis pelo imigrante Johann Ignatz Schroeder, meu tetra avô, que chegou ao Brasil fugido do Grão-ducado de Luxemburgo em 1882. Parentes mais próximos dizem que seus pais queriam que ele fosse padre, como não aceitava a ideia fugiu com dezoito anos de idade e foi morar em São Pedro de Alcântara, a primeira colônia alemã em Santa Catarina, onde foi fundador da usina de energia elétrica desta cidade. Após dois anos de residência naturalizou-se passando a chamar-se João Ignácio Schroeder. Em 1921, Ignácio Schroeder, transferiu a ilhota por venda pelo preço de dez contos de réis aos engenheiros ingleses Edward Simons e John Williamson, contratados há época pelo governador Gustavo Richard – que supostamente, vieram à cidade instalar a luz elétrica na Capital e lá instalaram uma oficina. Foi na Ilha do Francês que Ignácio Schroeder teve a sua vocação despertada para a orquidofilia e dedicou-se ao trato das orquídeas, tendo descoberto variedades raras e o primeiro orquidófilo em Santa Catarina a cuidar da multiplicação de plantas por meio de hibridação, através de documento idôneo.

Em 18 de agosto de 1928, John Williamson comprou a parte de Edward Simons, tornando-se seu único proprietário. Nessa época havia uma casa de moradia construída com pedras e tijolos, com diversos cômodos residenciais, além de plantações e o sortido orquidário. Após a morte de Williamson, o argentino Antônio Zacarias Muniz Barreto, filho de brasileiros, adquiriu a ilha por escritura pública em 30 de setembro de 1938, conforme escritura do Patrimônio da União. Em 1943, com a morte de Antônio Zacarias Muniz Barreto, a propriedade ficou com o filho Antônio Emílio Muniz Barreto, argentino excêntrico e milionário apaixonado pela Ilha. O argentino Antônio Barreto foi o responsável por incrementar o orquidário, criando jardins com flores raras, importadas de todo o mundo, entre elas, a orquídea elegante, uma variedade totalmente branca, quando envelheceu e adoeceu, os filhos não o trouxeram mais para a Ilhota.


Meu bisavô Joaquim Tomaz da Costa, o “Joaquim da Ilhota” como era conhecido por todos, contraiu matrimônio com Maria Virginia Schroeder da Costa minha bisavó, filha de João Ignácio Schroeder e até a sua morte foi responsável pela guarda da Ilha. Tiveram duas filhas: Maria da Costa Cunha, minha avó e Rute da Costa Siqueira, minha tia, e quatro filhos: meus saudosos tios Valdemar, Melquíades, Hercílio e Joaquim, todos falecidos e nasceram na Ilhota pelas mãos da parteira do lugar chamada de Elisa Bitencourt. Ainda menino cheguei a conhecer a bisavó Maria Virginia, já o meu bisavô faleceu quando eu tinha vinte anos. Eles me contavam que na Ilhota havia de tudo, desde horta, criação de porcos, galinhas, cabritos, bois, vacas e até um engenho de farinha. Com o falecimento do bisavô “Joaquim da Ilhota”, meu saudosíssimo tio Dário Timóteo Siqueira e tia Rute da Costa Siqueira passaram a ser os responsáveis pela guarda da Ilhota. Atualmente 42% do patrimônio pertencem à empresa Ilha do Francês Ltda e 58% aos descendentes de Antônio Emílio - Emílio Vicente, Maria José, Francisco e Margarida Muniz Barreto e a guarda da Ilhota está sob os cuidados do pescador Ademir, natural dos Ganchos e amigo de nossa família.


Minha falecida mãe Ruth Francisca Cunha Sardá desde moça até os vinte anos trabalhou na Ilhota fazendo afazeres domésticos. Desde menino tive o privilégio de poder brincar e explorar os recantos da Ilhota por diversas vezes, guardo ainda lindas recordações daquele tempo, por esta razão me considero duas vezes ilhéu. Lembro de um passeio de lancha que fiz com meus familiares quando tinha meus cinco anos, ocasião que minha mãe me levou até a presença do argentino. Ele tinha por hábito presentear amigos e pescadores quem ia fazer visitas na ilhota, era um homem generoso e acolhia todos com atenção. Ela me contava que ele dava dinheiro para ela comprar roupas ou coisas para ajudar no orçamento da família, comentava aos amigos mais próximos que quando morresse queria ser enterrado lá. Quando chegava da Argentina para passar suas férias, sempre chamava seu taxista favorito, o “Seo Boneco” como era conhecido na praça, estava sempre pronto para atender o excêntrico argentino. Naquela época não havia as facilidades de hoje para se comunicar e o sinal para avisar meu bisavô da chegada do argentino, era pelo espocar de foguetes ao largo do átrio da igreja de São Francisco de Paula, enquanto esperava a chegada de meu bisavô, ficava na venda do “Seo Izidoro” conversando animadamente e pagando bebidas aos amigos que vinha recepcioná-lo. Nesta época o ponto de embarque para se chegar até a Ilhota, era na pequenina Praia do Porto, localizada num promontório abaixo da Igreja ou no Canto das Pedras na praia de Canasvieiras. 

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