• José Luiz Sardá

MEMÓRIA: HOTEL BALNEÁRIO DE CANASVIEIRAS

"Texto extraído da Dissertação de Suzana Bitencourt - CASTELOS DE AREIA, que retrata o turismo de litoral em Florianópolis (1930-1980) UFSC 2005".



No início do século XX, Florianópolis ainda não tinha hotéis, apenas pensões que possuíam conotações diferenciadas em termos de hospedagens. O precursor do turismo no Norte da Ilha de Santa Catarina, amigo e saudoso senhor José Carlos Daux contava que o ex-governador Hercílio Luz achava que a construção da ponte que hoje leva seu nome iria desenvolver o turismo em Florianópolis. JoséCarlos Daux contava que a Ponte Hercílio Luz, o Hotel Majestic, Hotel La Porta no centro da cidade e o Hotel Balneário de Canasvieiras, simbolizavam na década de 1930, a inserção da Capital de Santa Catarina na rota do turismo e quarenta décadas após faria da Ilha de Santa Catarina um local de atração turística mais procurados pelos turistas brasileiros e estrangeiros.

Em 1930 foi inaugurada em Canasvieiras a primeira empresa de que se tem notícia. Tratava-se de uma olaria originada da parceria de dois moradores do local. Esta olaria esteve em funcionamento por três anos e abasteceu às obras do Hotel Balneário de Canasvieiras, construído na beira da praia. O transporte da produção era feito em carros de boi que deslocavam praticamente toda a produção para o canteiro de obras. A olaria agregou vários funcionários e gerou muitos negócios, mas não foi propriamente iniciada por causa da construção do hotel, e sim porque um dos sócios era natural de uma região que tinha muitas olarias, percebeu que em Canasvieiras o negócio poderia ser rentável. No negócio, um deles entrou com a jazida de barro para retirada da matéria-prima e outro com o capital. Esta olaria dissolveu-se por causa de um desentendimento entre os sócios, mas prosperava tanto que os mesmos adquiriram terras na região.

Segundo a historiadora Suzana Bitencourt em sua dissertação – Castelos de Areia, que retrata o turismo de litoral em Florianópolis (1930-1980) UFSC 2005, afirma que sua tia moradora nativa de Canasvieiras já falecida, senhora Adelina Severiana Bitencourt, filha mais velha de um dos sócios, contava que “foi uma verdadeira festa na localidade, veio muita gente de outros lugares para ver como funcionava uma fábrica de fazer tijolos e alguns homens foram recrutados de outras regiões para trabalhar na olaria”. Naquela época, a antiga freguesia de Canasvieiras era auto-suficiente, necessitava apenas de sal e querosene, combustível que utilizavam nas lamparinas, necessárias para os trabalhos a serem desenvolvidos à noite e que eram realizados no interior das residências pelas mulheres. Segundo depoimento do saudoso Carlos Mateus da Silva "para chegar ao mar, era necessário atravessar mangues e picadas. Nessa época, ainda não tinha nenhum acesso para praia, tudo foi aterrado a carro de boi de uma barreira próxima a praia. Naquela época por muitos anos o acesso dos moradores da Freguesia para chegar até a praia acontecia apenas pelo Caminho do Rei, atual rua José Bahia Bitencourt. Posteriormente, surgiu o Caminho da Picada, hoje Rua das Flores, que passou a fazer a ligação entre a Rua Velha e o mar".


Uma nota no jornal A Semana de 1929, informava que “A diretoria da emprêza Balnear de Canasvieiras contratou um hábil construtor civil senhor Remo Corsini, pela quantia de 132 contos de réis, para a construção do balneário”. Em um depoimento José Carlos Daux afirmou que o governo do Estado foi parceiro também da sociedade para aquela finalidade, uma vez que teria cedido uma parte das terras para o engenheiro em troca de serviços destinados para construção do hotel. Uma nota expressa no jornal da época, informava que no dia 12 de outubro de 1929 foi lançada a “pedra fundamental” do Hotel Balneário de Canasvieiras. Entretanto, José Carlos Daux, afirmava que “a inauguração do Hotel teria acontecido em 1928 e que o hotel tinha falido.

Ninguém procurava, aí os padres quiseram comprar para fazer um retiro, mas foi a maçonaria que comprou o hotel”.


No dia 28 de agosto de 1930, o jornal A Semana publicou, na primeira página, uma foto do hotel ainda em construção, cuja manchete dizia o seguinte: “Um dos notáveis melhoramentos da nossa capital é o Balneário de Canasvieiras. Construído pela iniciativa brilhante de um grupo de capitalistas, á cuja frente se acha o Sr. Coronel Pedro Lopes Vieira. Situado n’uma das nossas encantadoras praias há pouca distancia do centro da nossa ‘urbs’, o Balneário com o conforto que vai offerecer, será uma estação preferida pelos touristes, que dérem o prazer de nos visitar. A construção desse melhoramento deve-se a ação altamente realizadora do Sr. Lopes Vieira, presidente da Empresa Balneário, que mais uma vez pôz á usos seus méritos de administrador”.


Dona Adelina Severiana Bitencourt contava ainda que “Quando o hotel esteve alugado, colocaram o catavento para ter energia, era uma coisa assim... eu sei que foi muito bonito, foi uma nova inauguração, veio muita gente também, porque ficou uma cidade... aquele trecho todo, a rua do Balneário, atual rua Milton Leite da Costa, tudo tinha poste, lâmpadas, veio muita gente de Florianópolis para ver”... diz ainda: “Foi uma coisa que eu nunca esqueci, quando botaram a luz no hotel, pois que naquele tempo a luz era de lampião. Teve um jantar e veio muita gente de fora. Tinham políticos daqui que foram convidados a participar. Nós não participamos, a gente só espiava de fora”. - Se outrora aquela construção isolada e soberba, chamava a atenção dos moradores justamente pelo diferencial solitário, isto é, uma obra num imenso vazio, atualmente transformou-se em um modesto hotel, depois do surgimento de inúmeros outros hotéis e edifícios que o cercam.


As notícias do funcionamento do primeiro hotel à beira da praia, naqueles tempos, foram acompanhadas com interesse pela sociedade florianopolitana. Não é por acaso que se publicava a relação de pessoas da capital que antecipavam suas reservas para o carnaval de 1933. Todavia, as premissas de que o hotel aglutinaria as funções de local apropriado para eventos festivos e de lugar para hospedar turistas não decolaram logo de início. O público do Hotel Balneário de Canasvieiras era tão selecionado que O Estado publicava a relação dos hóspedes. O Hotel era frequentado também por famílias do Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre.




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Sobre o Autor

Gosto de me comunicar, expressar opiniões e mensagens inspiradoras de elevação espiritual. Sou uma pessoa de firmeza e tenho autoconfiança. Respeito e acolho a opinião dos outros, construir relações honestas e produtivas. Sou detalhista, tenho pré-disposição para ser criativo, respeito e admiração pelos animais e praticar o bem.

 

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